Nada
As palavras me fogem. Quando consigo formar uma frase, ela me escapa antes que eu possa passá-la para o papel. Ou então não sou capaz de dar continuidade ao pensamento. São fragmentos soltos, disformes, nonsense. Vivo de fases. Há épocas em que eu sinto a constante necessidade de me sentar e escrever algo, nem que seja um pequeno parágrafo por dia. E então essa onda de inspiração se vai, sem mais nem menos. E vem os dias escuros em que eu encaro a folha limpa por horas. E arrisco algumas palavras. Formo uma frase considerável. Mas então apago tudo, porque não flui. É tão estranho, porque a cabeça está sempre maquinando. Há sempre um turbilhão de pensamentos disputando pela minha atenção o tempo inteiro, e o resultado acaba sendo a minha incapacidade de manter o foco em qualquer coisa. Incapacidade de escrever algo que faça sentido, que pelo menos alivie um pouco toda essa poluição interior. É então que eu apelo para a metalinguagem, porque no fim das contas todas as linhas acima foram nada mais nada menos do que o famoso “encher lingüiça”. Só uma tentativa malsucedida de me enganar, de saciar essa ânsia de ter que escrever, mesmo sem ter o quê. Frustração.
Partida (volta)
Aonde vais? Ouvi teus passos martelando os degraus. Pelas minhas contas, tu pulaste o último, como de costume. Teu cheiro anunciara a tua chegada (ou partida?) e eu me pus ante a porta para ver-te pela última vez. Não dói tanto ver-te partir. Acostumei-me à tua ausência tão recorrente. Teu telefone desligado. Teus encontros marcados a que nunca ias. E sobre os quais sempre te desculpavas depois. Mas jamais mudavas. Uma hora parou de doer. Estás bonita com os lábios pintados de vermelho e os olhos claros destacando-se da pintura escura. Teu vestido é um pouco curto para mim. Mas não para ti. E eu me lembro dos teus palavrões todas as vezes que eu te reprimia pelas roupas. Lembro-me da tua voz rouca e decidida dizendo-me que não te lembravas de pedir-me opinião, e que eu permanecesse calado. Espero que tenhas juízo e não vás para a cama com o primeiro que encontrares. Sabes que é muito bonita e não terás dificuldade em arranjar um disposto a tirar-lhe o pequeno fiapo que vestes, mas que não precisas disso. Segues teu rumo como melhor te convires, sabes que a minha porta continuará no mesmo lugar. Sabes que, por mais que me olhes nos olhos e me mandes esquecer-te, pois jamais voltarás, tu voltas, e não te esqueço. Portanto aqui me encontro entre ti e a porta. Entre ti e teus olhos baixos, evitando-me a qualquer custo. Tu e teus lábios vermelhos, tua língua fácil de mentiras coçando para cuspir-me alguma frase malcriada que me tire do teu caminho e adiante a tua partida. Tem calma, te abro a porta. Mas não fico nas escadas te vendo andar para longe, como fiz da última vez. Não consegui dormir aquela noite. E já passei da fase de perder o sono por tua causa. Não te amo menos. Pelo contrário, te amo tanto que anestesiei meu coração para que meu sentimento não se esvaia. E aqui ele permanecerá, intacto, não importa quanto tempo dure a tua nova partida. As chaves continuarão escondidas embaixo do tapete, para o caso de voltares e eu não estar em casa no momento. Ou de eu não estar em casa mais. Este espaço aqui sempre permanecerá, com ou sem mim. E será teu. Assim como tudo o mais que me pertence. Assim como tudo o mais que sou.
A sete chaves
Os meus versos são seus. É sua cada palavra das minhas frases prolixas e confusas. Não que isso seja algum tipo de segredo, mas é só para que não haja dúvidas. É difícil evitar repetir tudo o que eu já cansei de dizer, mas não há outra forma de fazer isso. Se hoje eu acredito, é por uma razão. E se eu sigo em frente e faço planos e traço metas, é pela mesma razão. É uma daquelas coisas que dá vontade de sair gritando para todo mundo, mas não o faço porque não é necessário. E, no fim das contas, se os meus gestos não forem o bastante, minha voz de nada servirá. É seu o grito dos meus textos mudos, e é sua a minha poesia. Cada átomo que lhe é de direito. Eu não escreveria nada disso tudo por nenhum outro motivo. Eu sei que isso deve soar como um disco arranhado, de tanto que já foi repetido, mas se o repertório continua sendo o mesmo é porque ainda é verdadeiro. E assim será enquanto for. E esse “enquanto” por mim duraria toda a eternidade…
Reminiscência
Vai, deixa o tempo se encarregar da limpeza das suas memórias. Aquelas antigas lembranças vão empoleirar e posteriormente decompor-se em um canto qualquer da sua consciência. Não vai ser indolor. Agarrado a elas feito um viciado por tanto tempo, é natural que, de início, sinta-se atingido pela agonia da abstinência. E que, talvez, jamais se recupere completamente, e tenha que se vigiar constantemente para não cair na tentação e voltar ao ponto de partida. Mas vai valer a pena, e sabe disso. Então não resista. Deixa acontecer. Deixa ir.
Amarras
Estou sufocando. Parece que toda vez que tento me desvencilhar dessas antigas amarras, mais forte elas se prendem a mim. E o meu simples desejo por um pouco de ar puro parece um pecado, parece o pior erro passível de ser cometido. Isso não pode estar certo. Ninguém me disse que eu deveria me contentar em assistir a vida de dentro dessa redoma da qual nunca me permitiram sair. É verdade que eu nunca me incomodara com isso antes, mas a partir do momento em que percebi que existem tantas outras coisas além dessa superproteção ao meu redor, nada mais natural do que o surgimento desse impulso dentro de mim. E eu não gosto da tensão, ou do rumo que as coisas têm tomado, mas isso não vai cessar enquanto não me for concedida uma chance, uma mínima brecha. Eu realmente já não sou mais boazinha, se ser boazinha significa ser uma marionete, tendo todos os movimentos guiados, e aceitando isso passivamente. Não é novidade nenhuma que eu tenho os meus próprios conceitos acerca de muitas coisas, e que eu não dou o braço a torcer tão fácil assim. Já foi o tempo em que eu me comovia facilmente e chegava a acreditar que o que eu tinha acabado de falar (e que havia soado tão natural para mim) havia sido algo impronunciável de tão grosseiro. Hoje eu não abaixo a cabeça e nem retiro o que digo, porque eu sei o que eu falo, e eu sei o que eu quero dizer, mesmo quando teimam em me interpretar de forma errada. E se insistem nisso, eu já não me descabelo e acabo me convencendo de que é porque devem ter razão: eu simplesmente sei que, quando uma pessoa não quer ver o lado da outra, ela não fará isso. E então não haverá mais nada a ser feito. Se a paz depender somente da minha desistência pela conquista do meu espaço, então ela não virá. Eu me recuso a deixar que cortem as minhas asas. E eu esmurrarei as paredes da minha redoma com todas as minhas forças, custe o que custar, doa o que doer. Que acabem as minhas forças, que se esgotem todos os meus golpes, eu só cederei quando não houver mais pedra sobre pedra. É um desejo meu, é um direito meu, e eu não vou permitir que isso me seja privado. Não vou.
Círculo
Os meus dias são todos iguais. Nada de novo acontece. Não importa a duração do dia. Tanto faz se passa devagar, se passa rápido. É sempre a mesma coisa. E é sem distinções. Meus finais de semana não me guardam nenhuma animação, nada que descarregue o fardo da semana. Eu vivo em um eterno repeat, e a impressão que eu tenho é que eu funciono no modo automático durante a maior parte do tempo. Nada me surpreende. Nada é diferente. Eu vejo o mundo rodar e brilhar e gritar e fazer e acontecer para várias pessoas ao meu redor. Mas não para mim. Eu me sinto sufocada e forçada a permanecer exatamente onde estou. Tudo já é tão conhecido e tão velho. Estou cansada de toda essa proteção, de toda essa vigilância… Eu queria um pouco de espaço. Um pouco de novidade. Um pouco de qualquer coisa que me trouxesse mais ânimo… Já faz tanto tempo, tanto tempo…
Sete de Abril
E na escuridão, a paz
Olhos eternamente fechados
A salvo de todo o caos
Por esse mundo espalhado
Seria somente mais uma manhã
Mas foi preenchida por gritos
E lágrimas e sangue
E corações aflitos
Então que o tempo feche a ferida
E nos revele a verdade
Embora não devolva as vidas
Tiradas pela cruel realidade
Então que batamos à porta do paraíso
Se é que ainda há um à espera
Que nos trará de volta os sorrisos
E as cores da primavera
Que nos resguardará do medo
E da incerteza do desconhecido
E apagará nossas lembranças sombrias
E os pesadelos dos quais temos fugido
* Ao massacre de Realengo, no Rio de Janeiro, em 07/04/11.

